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Por Clara Viana

Na noite de ontem (28), o Teatro Oficina do Estudante sediou uma edição especial do Diálogos ECC, evento promovido pela Escola Comunitária de Campinas com o objetivo de discutir os principais temas da Educação na perspectiva da aproximação entre educadores e famílias na tarefa de educar nossas crianças e adolescentes. A abertura foi realizada pelo Diretor Pedagógico da escola, Marcos Márcio, dando início à palestra “A Infância Sequestrada pelas Telas: O desafio de educar na era digital”, comandada pelo pediatra integral e ativista Daniel Becker, um dos principais nomes da medicina humanizada no país.

Realizado em parceria com a Editora Papirus, o evento marcou também o primeiro evento de lançamento do livro, homônimo ao tema da palestra ou que também dá título à palestra, e contou com o apoio do Shopping Iguatemi Campinas e a colaboração do programa PIC (Primeira Infância Campineira).


Clique aqui para conferir os principais pontos abordados na palestra

Ao longo de sua fala, Daniel Becker traçou um panorama preocupante sobre os efeitos da hiperconectividade precoce e do uso excessivo de smartphones na saúde, no comportamento e no desenvolvimento neurológico de crianças e adolescentes. Para embasar sua análise, o pediatra trouxe dados e pesquisas expressivas sobre o tema.

No Brasil, pesquisa da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal aponta que as crianças brasileiras estão entre as mais conectadas do mundo, com exposição às telas chegando a duas horas diárias mesmo antes dos seis anos de idade. Entre os adolescentes, a média de uso chega a assustadores 8 a 9 horas por dia.

Para Becker, os impactos desse cenário já são visíveis e mensuráveis. “Também há pesquisas recentes mostrando crianças lendo menos, conseguindo fazer menos tarefas intelectuais e de coordenação motora. Estamos praticamente afastando as crianças dos principais elementos que formaram a espécie humana, o ser humano que se formou ao longo de milhões de anos em movimento, dormindo, em contato com a luz do dia, brincando, com os adultos racionando, planejando, correndo e interagindo socialmente”, afirmou o pediatra.

Diante de um adversário tão poderoso quanto os algoritmos das plataformas digitais, Becker foi enfático. Segundo o pediatra, enfrentar os algoritmos não é um desafio que as famílias devam assumir isoladamente. Para o palestrante, o combate exige políticas públicas e uma parceria sólida entre escola e família, criando uma rede capaz de devolver às crianças o direito a uma infância viva, saudável e protegida por limites que, na prática, funcionam como atos de afeto. 

Entre as medidas práticas defendidas pelo especialista, destacou-se o banimento dos celulares nos ambientes escolares. Segundo dados apresentados na palestra, a medida é capaz de gerar um ganho de 25% no aprendizado de matemática em apenas seis meses, além de resgatar a convivência real nos intervalos. O pediatra também defendeu a implementação urgente de programas de Educação Midiática, com capacitação de professores e famílias em temas como pensamento crítico e combate à desinformação.


Ao final da palestra, dois questionamentos enviados pela própria plateia foram selecionados e respondidos por Daniel Becker, tornando o encerramento do evento um momento de troca direta entre o especialista e o público presente.

Daniel Becker ainda realizou sessão de autógrafos do seu livro “A Infância Sequestrada pelas Telas” que todos os participantes receberam como parte da inscrição, transformando a noite em uma experiência que foi além da palestra e levou para casa, literalmente, à reflexão iniciada no evento.

Movimento OLHAR:

O sucesso e a grandiosidade do evento coroam a atuação do Movimento OHLHAR (Onde Há Limites, Há Amor e Respeito), iniciativa de mães da escola voltada a reforçar o papel das famílias no cuidado e controle do uso de celulares, dispositivos eletrônicos e redes sociais pelos filhos e alunos. Atuante nos encontros promovidos pelo Diálogos ECC, o grupo esteve presente nos bastidores e na mobilização da comunidade.

Amanda Boccato, mãe da escola e integrante do OHLHAR, e coord. da Comissão de Integração da ECC, compartilhou suas reflexões pós-evento, emocionada ao ver a evolução do projeto nascido dentro da comunidade escolar.

“Acho que a noite de ontem foi um gás que eu estava precisando para continuar fazendo tudo que já estamos fazendo! É muito bonito de ver como aquelas primeiras conversas de um grupo de mães preocupadas com o uso de telas pelos filhos chegou num teatro lotado com a palestra de um pediatra tão importante como o Daniel Becker. 

Ao final da apresentação, quando me levantei e olhei para trás e vi aquele bando de gente, fiquei feliz. Sim, sei que o cenário é assustador, alguns dados que o Daniel apresentou e que já tínhamos lido em tantas reportagens são de desanimar qualquer ser humano, mas estamos vivendo uma fase da vida que não está fácil ser mãe e pai, não está fácil ser escola e muito menos fácil ser criança e adolescente. São tantas informações, tantos perigos, tantas inseguranças, nossos cérebros não estão preparados para assimilar tudo o que está acontecendo.

Mas, em contrapartida, ver e saber que não estamos sozinhas/sozinhos nessa jornada, é acalentador. Nossos passos de esperança parecem pequenos perto de todos os desafios que enfrentamos na parentalidade atualmente, mas (e aqui meu lado utópico fala mais alto) são de esperança e acredito que essa palavra tem uma força transformadora.

Uma vez li ou ouvi alguém falar sobre o esperançar que significa agir, buscar ativamente e não desistir dos obstáculos. Então que sigamos esperançando! Que privilégio poder caminhar com vocês nessa jornada.”