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“As escolas são organizações complexas e sistematicamente desafiam seus gestores. Enfrentar tais desafios e ajudar a escola a evoluir é muito bacana e tem me ensinado muito.” 

Em entrevista a Rassani Costa para o Portal de Notícias da ECC, o Diretor Geral Rogério Silva falou sobre os desafios da gestão escolar e as expectativas diante do processo eleitoral.

Confira!

 

Rogério, sua gestão começou com um mandato tampão, no meio de uma pandemia e com inúmeros desafios na comunidade escolar. Como foi a transição e a chegada do novo Conselho Administrativo nesse cenário?

Partimos do princípio de que era preciso fazer mudanças importantes em temas financeiros, no modelo de gestão e na cultura organizacional. E pactuamos que tais mudanças seriam fruto de decisões compartilhadas com a direção pedagógica. Fomos fiéis às prioridades que estabelecemos no nosso plano de gestão, e ao mesmo tempo, delicados para estimular e manejar o processo de mudança. 

 

Quais mudanças o Conselho Administrativo achou necessário fazer, assim que assumiu a direção? 

Depois de dialogar com inúmeros colaboradores nos primeiros 45 dias, redesenhamos a estrutura administrativa e iniciamos a implementação de um modelo mais ágil e baseado em novos líderes e em times com maior autonomia. Cancelamos obras que arruinariam o caixa da escola e reativamos a Comissão de Obras, que foi essencial para formular projetos viáveis para as novas salas de música, as salas de matrícula e nova ala da cantina. Antecipamos o processo de matrícula e orçamento 2022, com maior participação dos líderes, o que permitiu realizar muitas mudanças. 

 

Destas mudanças, na sua observação, qual foi a mais impactante para a Escola?

São três. Reconstruímos o orçamento de modo a projetar um 2022 superavitário para a escola, praticando um dos menores reajustes médios de mensalidade do mercado (6,4% e abaixo da inflação). Redesenhamos o setor administrativo, criando o setor de Pessoas, Saúde e Bem-Estar e trazendo uma nova coordenadora executiva, num desenho que mostrou-se mais eficiente e humanizado que o anterior. Finalmente, o pedagógico reduziu o número de coordenações e revisou as equipes, gerando ganhos de qualidade e eficiência.

 

O CA criou o Colegiado Operacional. Qual o ganho em ampliar e garantir autonomia dos gestores administrativos?

Todas as teorias de gestão contemporâneas valorizam a autonomia das equipes, a agilidade das decisões e a qualidade das relações e dos diálogos no ambiente de trabalho. O colegiado operacional foi concebido nesta perspectiva e tem se mostrado essencial para assegurar uma escola mais atenta ao contexto e mais capaz de responder a ele. 

 

No campo pedagógico, como foi a construção com as lideranças, assim que o Conselho Administrativo assumiu?

O corpo pedagógico da escola é extremamente maduro. Nós apontamos a necessidade de intensificar diálogos com a comunidade escolar, de modo a apoiar a direção e as coordenações pedagógicas a também evoluir suas práticas de gestão e a qualidade da oferta educacional. Foi este suporte, com respeito à autonomia pedagógica, que permitiu o desenho da nova proposta de ensino médio, as mudanças nos anos iniciais, a revisão das equipes e uma série de outros esforços necessários a assegurar a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças num dos períodos mais desafiadores da história do Brasil, o período pandêmico. 

 

Como tem sido fazer a gestão em diálogo com tantas comissões e o Conselho Comunitário? 

As comissões são importantes pólos de força na escola. Reconhecemos muito o trabalho das comissões e elas foram essenciais para o que produzimos nos últimos meses: infra-estrutura, vida econômica, enfrentamento da pandemia, escuta da comunidade escolar. O mesmo se pode dizer do Conselho Comunitário, instância com quem mantivemos diálogos permanentes, apresentando ideias, deliberando temas e recebendo feedback. Sou entusiasta das comissões e do conselho e gostaria de ver tais espaços um pouco mais frequentados pelos alunos, ocupados pelo Grêmio Escolar. Nisso é preciso avançar.

 

Um ponto muito discutido, mas ainda não implantado na Escola é a questão da equidade racial. O que é e por que ser uma escola antirracista?

O Coletivo Antirracista foi o espaço no qual nossa chapa se articulou. E como afirmamos em nosso plano de gestão, nós iríamos mover a escola na direção da equidade e do combate ao racismo, valor essencial a uma escola de base humanista. Passamos a contratar com critérios afirmativos, como fazem as maiores empresas brasileiras; e apoiamos o mergulho da escola em formações e diálogos antirracistas. Ainda há muito a caminhar nesta agenda, mas 2021 foi um ano muito importante para esta pauta.

 

Com as eleições internas chegando para o Conselho Administrativo e para representantes, qual balanço você faz deste mandato?

Quem deve fazer o balanço é a comunidade escolar. E eu espero que ele seja positivo. Nós atuamos de modo voluntário para ajudar a cuidar da escola que acolhe e prepara nossos filhos para a vida. Estamos felizes com o que fizemos e com o que foi alcançado. Sabemos também que há grandes desafios pela frente e que será necessário o envolvimento permanente de todas as pessoas desta comunidade para levar nossa escola ao futuro.

 

E sobre as eleições internas? Há uma proposta de continuidade?

Apostamos em renovar parte do Conselho Administrativo a cada mandato, de modo a evitar rupturas e manter o curso das mudanças. Do grupo atual, além do meu papel de Dir. Geral, o Daniel (Dir. Financeiro), a Verônica (Dir. Associada) e a Fernanda (Dir. Administrativa) fizeram trabalhos essenciais e foram ativadores de muitas mudanças. Parte do nosso grupo entende que precisa seguir na gestão e outra parte será renovada. O mesmo vai se dar com alguns coordenadores de comissões e, claro, de representantes, onde haverá renovações.

 

Agora uma avaliação pessoal. Como é ser Diretor Geral da Escola Comunitária de Campinas? É possível descrever essa experiência?

É trabalhoso e gratificante na mesma medida. As escolas são organizações complexas e sistematicamente desafiam seus gestores. Enfrentar tais desafios e ajudar a escola a evoluir é muito bacana e tem me ensinado muito. Mas continua difícil explicar à minha filha Nina (11) e ao meu filho Tomé (8) porque não ampliamos o intervalo do recreio ou ainda não fizemos uma linda pista de skate. Esta parte é divertida.

 

Qual mensagem você deixa para a nossa comunidade escolar?

O futuro da Comunitária depende de sua capacidade de compreender e responder à realidade corrente, diversificando sua oferta pedagógica em atenção às demandas que têm emergido das infâncias e juventudes. As novas gerações querem o desemparedamento da educação, mais autonomia no trabalho por projetos e espaços para investigar seus interesses: pesquisa, literatura, esporte, artes, games, sustentabilidade, diversidade, direitos. Práticas que até pouco tempo eram comuns apenas às universidades, são agora tema para as escolas. Os tempos são outros e dar atenção a isso é fundamental.

Além disso, aprendi que nossa escola é fruto da construção permanente de sua comunidade escolar. Em nenhum momento devemos abandonar o espírito que vive nesta escola há mais de 40 anos. Escola democrática requer que saibamos avançar progressiva e continuamente, combinando escuta, inclusão e pragmatismo. Neste caminho, é essencial não transformar diferenças em antagonismos; ao contrário, reconhecer que a essência de uma escola humanista reside em sua capacidade de criar ambientes conversacionais de qualidade e avançar a partir das diferenças.